Antes de confiar em uma empresa de recuperação de dados, você precisa saber de algumas coisas. Afinal, com quase 13 anos de experiência na área — inclusive dentro de outras empresas do ramo — posso afirmar com todas as letras: nem tudo que essas empresas dizem é verdade.
Na verdade, existem vários mitos e até inverdades propositais. Muitas vezes, elas usam gatilhos mentais para “pescar” você pelo discurso, e não pelo que realmente entregam.
Os mitos contados pelas empresas de recuperação de dados
Vamos abordar o tema, mas não para denegrir concorrentes. O objetivo, na verdade, é evitar que você caia em contos de fada.
Afinal, em alguns casos, só de enviar o dispositivo você já assume custos que ninguém explicou antes. Ou seja, muitas empresas não têm expertise para recuperar os dados — elas têm expertise em arrancar o seu dinheiro.
Além disso, o jogo costuma ser assim: se a recuperação é fácil, elas fazem; se é difícil, elas recusam e cobram pela avaliação. Pior ainda, ao longo desses anos ouvi relatos de empresas que simplesmente destroem o dispositivo e eliminam qualquer chance de recuperação.
Portanto, veja alguns mitos que merecem atenção.
“Somos a maior empresa de recuperação de dados do Brasil ou da América Latina”
Como assim? Afinal, com base em quê? E qual órgão validou essa informação?
Na verdade, esse tipo de populismo barato tem uma única intenção: fazer você acreditar que a empresa está no topo da cadeia. Porém, na prática, não está.
“A única empresa com laboratório sala limpa classe 100”
Primeiro, vale explicar o conceito. Sala limpa classe 100 é um ambiente com controle de partículas para abrir dispositivos sensíveis à contaminação, como os HDs mecânicos.
Porém, como saber o que existe no laboratório do concorrente? Será que quem afirma isso realmente tem uma sala limpa classe 100 ou apenas uma câmara de bancada?
Afinal, uma sala dessas exige projeto completo: mesas apropriadas, piso e tinta específicos e até o rejunte planejado. Na última vez que participei de um projeto assim, o custo de uma sala de 15 m² — homologada e certificada — ficou em torno de R$ 60.000,00.
Além disso, a cada três meses alguém precisa trocar os filtros do purificador, o que também custa caro.
Então, será que as empresas investem mesmo nisso? Sempre que pesquisei, me passando por cliente, pedi fotos e o certificado de homologação. E, em todas as vezes, ouvi que não podiam mostrar por “contrato de confidencialidade”. Estranho, não? Afinal, quem tem algo relevante costuma se orgulhar de mostrar.
Sabe o que realmente acontece? Hoje já existem técnicas de descontaminação fora do ambiente controlado. Ou seja, abrir um HD sem sala limpa é possível — e, por isso, esse investimento deixou de ser prioridade no setor.
Engenheiros
Passa um ar de profissionalismo, não é? Pois esse é justamente o gatilho.
Engenheiros de software, engenheiros eletrônicos… Na verdade, muitas vezes são só especialistas em enrolação. Afinal, não consigo enxergar em que momento um engenheiro entra na conta da recuperação de dados.
Claro, alguém pode ter estudado engenharia e trocado a carreira por uma empresa do ramo. Mas um advogado também poderia fazer o mesmo — e em que isso ajudaria? Em nada.
No fim, recuperação de dados é vivência. É essa vivência que nos capacita a pensar e a criar soluções. Caso contrário, o título fica só no papel.
“Somos a única empresa que presta esse serviço no Brasil”
Sim, sem dúvida! A única que presta esse tipo de desserviço.
Afinal, na recuperação de dados o muro do vizinho é alto — não dá para espiar o gramado do outro.
Enfim, esses são apenas alguns exemplos. Fica o alerta: sempre que uma empresa de recuperação de dados se disser a melhor, ou dona de uma tecnologia secreta, desconfie na hora.
As avaliações no Google não dizem nada
As empresas de recuperação de dados usam as avaliações do Google como marketing. Mas o que existe por trás disso? Vou te contar uma história real.
Na última empresa onde trabalhei, antes da Crowdertech, as avaliações vinham de amigos próximos. Ou seja, um círculo social de mais de mil pessoas. Aliás, eu mesmo agenciei várias dessas avaliações de gente que nunca foi cliente.
Além disso, oferecíamos descontos enormes para o cliente deixar uma avaliação positiva, sem qualquer espontaneidade.
Havia ainda um terceiro artifício. Nos trabalhos de empresas grandes, combinávamos uma troca: em troca de desconto, a empresa inteira comentava no Google. Ou seja, todos os departamentos avaliavam o mesmo serviço, com textos que nós mesmos escrevíamos.
Em um desses casos, juntamos mais de 50 avaliações da mesma empresa, além de depoimentos em vídeo com roteiro nosso. De novo, nada espontâneo. Existe crime nisso? Na minha visão, não. Porém, fica a pergunta: quem usa esses artifícios tem competência técnica ou só competência em marketing?
Por que estou te contando isso?
Afinal, essa corrida por avaliações positivas tem dois motivos:
- Induzir você a escolher a empresa pela avaliação fabricada.
- Ofuscar as reclamações reais.
Ou seja, no fim você não confia na expertise da empresa. Na verdade, você confia em avaliações fabricadas e roteirizadas com gatilhos.
O que avaliar antes de enviar o seu dispositivo
Expertise técnica: o ponto mais importante
Antes de tudo, peça para falar com o técnico pelo telefone — aquele que vai executar o seu trabalho. Em seguida, peça uma explicação técnica.
Garanto que, mesmo leigo, você logo percebe quando está diante de um amador que só segue tutorial de internet. Em breve, aliás, vamos publicar um roteiro de perguntas técnicas para você usar na hora da contratação.
Veja o conteúdo do site
Afinal, é impossível falar de recuperação de dados sem técnica. Portanto, avalie se o conteúdo faz sentido ou se é só cópia da internet.
Por exemplo, um concorrente nosso compara a tecnologia RAID a um “grande ecossistema” e às “rodas de uma carreta”. Além disso, ele afirma que o JBOD — uma das configurações mais complexas de recuperar — não seria RAID, e ainda o chama de “o excluído da turma” (sic).
Esse tipo de conteúdo é engraçado? Sim. Porém, também é preocupante. Afinal, ele escancara uma fragilidade técnica enorme. E, ao enviar o dispositivo para uma empresa assim, você corre o risco de perder o acesso aos dados por imperícia.
Conteúdo do blog
Empresas técnicas têm prazer em criar conteúdo relevante. Ou seja, elas informam, explicam e até alertam.
Portanto, veja com que frequência a empresa publica artigos técnicos ou grava dicas para o YouTube. Além disso, confira se o conteúdo é original, porque muitas vezes a cópia é ipsis litteris, sem mudar nem as vírgulas de lugar.
Conclusão
Recuperação de dados é coisa séria. Afinal, em muitos casos você terá uma única chance de recuperar arquivos preciosos.
Por isso, procure empresas sérias, comprometidas com inovação e transparência — e com a expertise mais evidente do que o marketing.
Recentemente, aliás, fizemos uma denúncia gravíssima sobre como o setor age em ataques cibernéticos. Se sobrar um tempo, leia e compartilhe para que mais pessoas não caiam na cilada. Obrigado pela leitura!